Diversificação das carteiras ganha espaço | Entidades definem mudanças nas políticas de investimentos do an o que vem

Se imobilismo é uma palavra em desuso pelos comitês e diretorias de investimento das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) nas discussões das suas políticas de investimento para 2020, diversificar é a palavra que dá o tom. Além da renda variável, cujo percentual está sendo ampliado nas carteiras de quase todas as fundações, estratégias de crédito privado, imobiliárias e multimercados, entre outras, também estão em alta. Em outras palavras, as fundações não estão elegendo uma única cesta para colocar os ovos.

Lakoski: meta atuarial ousada para 2020

A Fundação Copel, que mantém dois comitês de investimento (um mais executivo ligado à diretoria de investimentos e outro mais consultivo vinculado ao Conselho Deliberativo) está em fase final de elaboração de sua política para 2020. Estudos técnicos encomendados a uma consultoria externa, assim como os estudos internos sobre a taxa atuarial, vão subsidiar as decisões de investimento. “Nossa meta atuarial ainda é ousada e há um plano de incentivo à aposentadoria na patrocinadora que deverá impactar o passivo, então esses efeitos precisam ser avaliados”, explica o diretor financeiro da fundação, José Carlos Lakoski.

A situação é mais tranquila no plano BD, com patrimônio de R$ 6 bilhões, mesmo tendo que lidar com riscos de reinvestimento e de longevidade. “Os ativos e passivos do BD estão muito bem casados e o custo do reinvestimento é quase marginal”, afirma o diretor. O principal foco da política de investimentos 2020 está no plano CV, com R$ 11,5 bilhões de patrimônio (9 mil participantes ativos e 7 mil aposentados). Segundo Lakoski, a definição da política de investimentos desse plano será ajustada com base nos estudos técnicos. Mas bolsa, fundos multimercados e os Fundos de Investimento Imobiliário (FII) deverão ter suas parcelas ampliadas. “Já temos alocação em um FII e estamos abrindo espaço para investir mais nessa classe, inclusive já aprovamos dois novos gestores”, conta Lakoski. Segundo ele, “a principal linha de ação será mesmo aumentar a parcela de renda variável”.

O plano CV está cindido em duas partes, sendo uma delas de capitalização, agregando as contas individuais dos participantes ativos (CD), e outra de mutualismo, representando os recursos garantidores dos participantes aposentados (BD). Na média, o CV tem 7% alocado em renda variável, mas na sua parte CD já são 15% alocados em bolsa, além de 45% em ativos lastreados no IMA-B e 40% em CDI. A fundação pretende reduzir o percentual de IMA-B e aumentar bolsa por meio de movimentos graduais. “Nossas posições já vêm sendo construídas há muito tempo, não damos grandes guinadas”, ressalta Lakoski. A política de investimentos da fundação Copel já contempla a alocação no exterior desde 2018, mas essa classe, que nunca foi utilizada, voltará a ser avaliada agora.

Crédito – Crédito privado é uma das classes de ativos que tende a crescer na carteira da Previsc, o fundo de pensão da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc). Segundo o diretor de Investimentos da entidade, Ricardo Esch, o objetivo é buscar uma rentabilidade mais atraente frente à meta atuarial. “Já temos um fundo exclusivo de crédito, com R$ 40 milhões, que aproveitando o fechamento das taxas nos garantiu bom retorno”, explica Esch. “Pretendemos chegar a R$ 100 milhões nessa classe em 2020 e a definição do comitê de investimentos deve seguir nessa direção”.

De acordo com o diretor de investimentos da Petros, Alexandre Mathias, a alocação em crédito deve ser expressiva nos dois próximos anos, com destaque para carteiras de crédito de infraestrutura. Conjunturalmente, porém, haverá um período de ajuste nos spreads porque o processo de precificação de crédito ainda é imperfeito. “O sinal de risco aqui é ruim, lá fora, por exemplo, há oscilações de 60% a 70% nos bonds enquanto as debêntures aqui oscilam apenas 0,5%, então vamos ter um movimento de venda de papéis de crédito e abertura de spreads”, avalia o diretor. Segundo ele, a Petros reduziu sua exposição para atravessar essa transição, mas sempre com atenção para aproveitar as oportunidades quando os spreads subirem. “Não será uma alta provocada pela deterioração da qualidade do crédito das empresas, ao contrário”, lembra Mathias.

Na fundação Copel, os multimercados, que hoje respondem por uma fatia de 10% da alocação média, também devem crescer de forma gradual, incluindo fundos long short, macro e quantitativos. A alocação no exterior é outro foco de análise, já que a atual política prevê limites de 5% a 10%. A expectativa é de que também aí haja um ajuste gradual, a depender dos estudos de fronteira eficiente para a parte CD e dos estudos de ALM na porção BD, conta Lakoski.

A entidade também aplica cerca de 10% de seu patrimônio no segmento de crédito, refletindo a situação de prêmios comprimidos que tem afastado boa parte dos investidores institucionais desse mercado. “Conseguimos capturar boas taxas até agora, mas há dúvidas sobre o horizonte dos spreads em 2020. Renda variável, multimercados e FII poderão suprir a busca de retornos que o crédito privado ainda não sinaliza”, explica Lakoski.

Litz: tomar risco hoje é necessidade

Taxas e inovação – A Real Grandeza, que hoje não investe em multimercados, prevê alocar até 4% nessa classe em sua política para 2020. “A indústria de multimercados tem que começar a mudar, reduzir suas taxas de administração e de performance, oferecer produtos mais inovadores”, defende o presidente da entidade, Sérgio Wilson Ferraz Fontes. Esses fundos ainda oferecem uma grade limitada de bons produtos, diz ele, até porque os melhores, mais bem posicionados, acabam fechando rapidamente para novos investimentos. Como não abrimos mão de high grade para os investimentos, o crédito privado só vai interessar se aparecer coisa muito boa, talvez em infraestrutura”, diz Fontes.

A Fibra fez uma alteração significativa em sua alocação no início de 2019, até por conta da Resolução CMN 4.661, e agora estuda os ajustes decorrentes da revisão dos ALM. “Voltamos a investir em multimercados macro e long short, ampliamos a exposição em renda variável olhando para a perspectiva de mudança do cenário econômico e para 2020 devemos diversificar um pouco mais a parcela de ativos que tomam risco”, informa o diretor de Administração e Processos da Fibra, Marcos Aurélio Litz.

O plano da Fibra é um BD maduro e aberto, que por sua característica deveria tomar menos risco mas, diante da mudança no patamar dos juros, será preciso acrescentar um pouco mais de ousadia na carteira. “Vamos tomar risco porque isso deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade. Estamos aguardando o novo ALM agora em novembro e olhamos para outras classes de ativos”, diz Litz. Na renda variável, small caps e long bias estão no radar da fundação. Os FII passam a ser atrativos graças ao aumento da oferta e diversificação de carteiras e fundos gigantes, capazes de abrigar volumes mais expressivos de investimentos. No segmento de FIPs, a maior parte dos nove FIPs da Fibra está em fase de desinvestimento e essa é uma classe que a entidade monitora de perto. “É uma classe que deve ganhar força se o cenário macro melhorar, parece que a legislação já está mais pacificada e aprimorada nos últimos anos”.

A Fibra também está fazendo um ajuste em sua meta atuarial este ano, que sai de IPCA mais 5,76% para IPCA mais 5,51%. “Ainda vamos manter o equilíbrio mas é um desafio crescente, então não há como não diversificar e assumir mais risco”. Embora a carteira esteja acima da meta, a entidade é geradora de caixa e essa parcela vai precisar ser reinvestida. Hoje a renda fixa responde por 80,69% da carteira total, renda variável por 7,17%, estruturados por 5,79% e os demais são espalhados, sendo 2% em exterior e 2% em FII. A classe de exterior deve ser ampliada, incluindo renda fixa além de equities, mas tudo dependendo do cenário externo. Os estruturados devem ganhar mais peso se o cenário doméstico se mantiver. “Também olhamos crédito privado com muito cuidado, porque ainda não há bons produtos com spreads atrativos”, conclui Litz.

Exterior e FIPs – A Petros propõe ampliar sua alocação no exterior, como uma estratégia de proteção mais ampla. “Já estamos em conversas avançadas com gestores externos para atingir um grau de proteção maior”, conta Mathias. “O objetivo não é só diversificar em setores e moedas, queremos também minimizar a exposição em bolsa, não ficar expostos apenas em estratégias de renda variável lá fora”.

Na visão de Mathias, outra classe que tende a crescer é a dos multimercados. “Devemos aumentar bastante, em duas caixinhas: em fundos multimercados estruturados e em multimercados enquadrados, seguindo a regulamentação da Previc. Em 2020, os multimercados devem ter retorno favorável, estima o diretor da Petros, e a projeção é de que rodem entre 150% e 200% do CDI. “Há uma boa chance de chegar à meta com risco moderado nesses fundos, o apelo é grande e o risco de perda é limitado”.

Já nos FIPs, ele lembra que é preciso considerar o modelo de governança. “Na nossa proposta, vamos sugerir considerar ações em todo o seu conjunto, incluindo Bolsa e FIPs. A deliberação considera que os mandatos para investir em ações poderão ser preenchidos também com FIPs”, diz. A proposta da Petros será ter 5% ou 6% em Private Equity, com uma construção lenta dessa posição, começando com 1% a 1,5% ou 2%.

A carteira de imóveis, via FII, hoje tem 4% dos ativos que em sua maturidade caminharão para 5% ou 6%. “Há poucos FII hoje e estão inflacionados, os mandatos vão ampliar a exposição mas será cuidadoso, com ajustes táticos.

Diversificação das carteiras ganha espaço | Entidades definem mudanças nas políticas de investimentos do ano que vem

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