Fundos estrangeiros entregam bons retornos e PETROS vai buscar investimentos no exterior

 A Petros, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, que acaba de alcançar a marca dos R$ 100 bilhões em patrimônio, decidiu investir 10% desse total em ativos no exterior. Em breve, começa a escolher os gestores que vão se ocupar disso.

Fundos estrangeiros entregam bons retornos

Apesar da volatilidade global, em virtude da guerra comercial e do Brexit, quem investiu no exterior não têm do que reclamar

As fundações que apostaram nos fundos de investimento no exterior estão colhendo bons frutos em 2019. Eles se destacam como a maior rentabilidade do ano, até agosto, dentre as principais opções na carteira da EFPC. No período, os dois principais benchmarks internacionais adotados pelas entidades (S&P 500 e MSCI Global) sobem 18,82% e 15,63%, respectivamente. É bem verdade que não se trata de uma distância tão grande em comparação com o Ibovespa (15,07%), mas a rentabilidade dos ativos globais pode ser turbinada pelo dólar. No ano a moeda americana sobe cerca de 7% contra o real (apenas em agosto, a alta foi de 8,5%, a maior variação mensal desde setembro de 2015). Na renda fixa internacional, os ganhos são mais modestos, mas também na casa dos dois dígitos e acima do mercado local – o IMA-Geral sobe 9,1% de janeiro a agosto, enquanto o índice de multimercados da Anbima (IHFA) avança 6,6%.
As intempéries do cenário global, que traz no bojo a guerra comercial e o Brexit, não impediram os investidores de faturar alto. A expectativa de um crescimento mais brando das grandes economias tampouco desanimou os profissionais do mercado. Pelo contrário. Ela serviu na verdade como pretexto para o desempenho positivo dos ativos internacionais. A aposta em um novo ciclo de afrouxamento monetário reduziu os prêmios no mercado de juros, beneficiando os fundos de renda fixa que fazem a precificação diária da carteira (marcação a mercado), diz Giuliano de Marchi, diretor da JP Morgan Asset para América Latina. Surfando essa onda, o fundo de juros e moedas da casa, com o hedge do dólar, subiu 11,1% em 2019, até agosto. Sob o mesmo pano de fundo, as bolsas subiram com a aposta de que os juros em queda manterão as economias pujantes mesmo com as tensões geopolíticas. Embalado pelo elevado apetite ao risco dos investidores, o fundo de ações da gestora, com a adição do câmbio, avança 22,4% nos oito meses do ano.

Patinando – A rentabilidade atraente, entretanto, não foi o suficiente para demover as fundações. A alocação consolidada segue com dificuldades para ultrapassar a barreira de 1% do total de recursos no sistema – segundo a consultoria Aditus, o exterior corresponde a cerca de 0,70% da indústria da previdência fechada. A carteira de ativos globais da JP Morgan Asset no país soma cerca de R$ 1,2 bilhão. A gestora não divulga o crescimento recente, e embora se trate de volume relevante ainda é muito pouco em termos relativos. Na América Latina, o portfólio global da asset ultrapassa R$ 100 bilhões, com os investidores andinos bem mais adiantados no processo de internacionalização.
A volatilidade do front internacional tem de fato retardado o movimento dos fundos de pensão para além das fronteiras, diz de Marchi. Ele adverte, contudo, que o comportamento comum de tentar acertar o melhor momento para entrar no mercado não é o mais indicado. “Temos notado um aumento no interesse sobre o exterior e acredito que em pouco tempo teremos um aumento importante nessa alocação por parte das fundações”, diz ele.

Novos mandatos – Marc Forster, diretor da Western Asset, também está animado com a perspectiva para o crescimento no volume às estratégias globais. “Pelos processos de concorrência nos quais estamos participando, projetamos que cerca de R$ 1 bilhão deve ser alocado em nossos fundos em breve”, afirma. Caso confirmado, será um aumento próximo de 50% frente a carteira de R$ 2 bilhões da Western, que ficou relativamente estável nos últimos meses com a deterioração do cenário global.
Apesar do ambiente internacional desafiador, a confortável posição de estacionar no CDI não é mais possível, o que força o investidor a partir em busca de novas alternativas, afirma Forster. “O exterior precisa entrar na carteira dos investidores”, diz ele. “Ao fazer uma diversificação somente com ativos locais, a fundação estará sujeita aos mesmos riscos”, diz o executivo, fazendo referência ao episódio ‘Joesley Day’. A divulgação do grampo do sócio do frigorífico no ex-presidente Michel Temer em maio de 2017 sacudiu os preços de todos os ativos do mercado local. “Essa questão não teve interferência no desempenho dos ativos globais”, afirma o diretor da Western Asset. Ele diz ainda que o receio de um eventual aumento da volatilidade na carteira não deveria servir como desculpa para as EFPCs que preferem manter todo o portfólio dentro de casa. Isso porque, segundo Forster, por acessar uma gama maior de alternativas em comparação com os fundos locais, os pares globais têm uma volatilidade até 50% menor devido à diversificação. É o caso de dois fundos de ações da Legg Mason, controladora da Western Asset. Ambos os produtos, com o hedge cambial, sobem cerca de 20% no ano. Um compra ações de grandes empresas conhecidas dos consumidores como Apple, Microsoft, Samsung e Disney. O outro investe em empresas de infraestrutura listadas nas bolsas globais. “São produtos com retornos superiores aos do mercado local e com uma volatilidade menor”, afirma Roberto Teperman, diretor da Legg Mason.
Os dois fundos foram trazidos sem a flutuação do dólar porque a demanda inicial era mais voltada para essa opção. Com as mudanças na legislação e a própria sofisticação das entidades, Teperman diz que a procura por fundos de prateleira começa a diminuir. “Os fundos de pensão começam a buscar soluções customizadas”.

Exclusivo – Na M Square, o diretor de relações com investidores, Ariel Morgenstern, também tem notado uma procura crescente das fundações por um fundo global para chamar de seu. A asset acaba de estruturar no fim de agosto um fundo de fundos exclusivo para a Fundação Promon, um dos primeiros do setor nesses moldes. “Por termos o foco exclusivo em investimentos globais, nos dedicamos bastante nos últimos meses para entender todos os detalhes operacionais e regulatórios para estruturar o fundo”, diz Morgenstern. “Não foi um trabalho muito fácil e demorou cerca de seis meses até ficar pronto”.
O trabalho da M Square consiste em colocar de pé a estrutura do fundo de fundos e encontrar os melhores gestores para as diferentes classes de ativos no mercado global. “Com a estrutura que temos, não conseguimos fazer uma análise aprofundada, por exemplo, do mercado acionário europeu”, diz o diretor da M Square. “Mas conseguimos identificar os melhores gestores nesses mercados para fazer o trabalho”. Graças ao garimpo, a carteira global de gestores de ações da asset rende 26% no ano, até agosto, considerada a variação cambial.

In loco – A Geo Capital, no entanto, comprova que não necessariamente é preciso ter equipes sediadas no exterior para auferir bons retornos com os ativos globais. Baseada em São Paulo, o fundo da gestora exposto ao dólar sobe 29,97% de janeiro a agosto. A Geo foi fundada em 2013 e tem aproximadamente R$ 750 milhões de investidores de alta renda. Com o histórico do fundo na manga, ela começa a prospectar o público institucional.
Segundo Gustavo Aranha, diretor de distribuição da Geo Capital, o desempenho de destaque do fundo se deve à filosofia da casa que tem como um dos pilares a análise criteriosa do preço do papel. Hoje muito se fala sobre os atritos entre as lideranças mundiais e as consequentes turbulências nos ativos quando se analisa o mercado global, mas pouca atenção se dá ao atual patamar do preço das ações, diz o executivo. “Os mercados subiram bastante desde 2009, e há diversos papéis caros no mercado”, afirma Aranha. Entre os nomes no portfólio da Geo estão alguns nomes bem conhecidos, como AB Inbev e Moody´s, mas outros nem tanto, como John Deere e Comcast, do setor de tratores e mídia, respectivamente.
Apesar dos poréns com os inúmeros riscos no horizonte internacional, o momento de partir para o exterior parece ter chegado a um ponto limite para as fundações. “É compreensível o investidor se refugiar no CDI a 14%, mas quando a taxa cai a menos da metade, diversificar a carteira com o exterior é inevitável”, diz Forster, da Western Asset. “Sempre haverá algum barulho no cenário global, o mercado nunca oferece 100% de certeza”, afirma de Marchi, da JP Morgan Asset. “A diversificação geográfica deveria ser um movimento estrutural”, diz o diretor da Geo Capital. “O conjunto da obra ao ter duas fontes de retorno completamente distintas é muito melhor do que apenas uma isolada”, afirma Aranha.

Fundação Promon vai além da oferta local
André Natali, diretor de investimentos da Fundação Promon, afirma que a opção pelo fundo exclusivo foi para não limitar o menu às opções nas prateleiras das gestoras. “Ao invés de ficar esperando as ofertas chegarem, partimos diretamente para o exterior, onde a quantidade de opções é muito maior”, diz Natali. “Aumentar o rol de ativos elegíveis vai melhorar consideravelmente a relação risco/retorno da carteira”, afirma o diretor.
Os R$ 60 milhões do novo veículo, uma pequena fração perto da carteira de R$ 1,6 bilhão da Fundação, são oriundos dos fundos globais de ações em que a EFPC já investia anteriormente. “Temos agora um fundo que vai buscar os melhores gestores globais tanto de ações, mas também de crédito ‘investment grade’, ‘high yield’ e multimercados”. O custo para ter uma estrutura customizada aumentou, mas o diretor entende que vale a pena, dado o retorno esperado. A estimativa de rentabilidade do fundo é de 5% ao ano mais a variação cambial.

https://www.investidorinstitucional.com.br/sessoes/portfolios/ativos-no-exterior/33655-fundos-estrangeiros-entregam-bons-retornos-apesar-da-volatilidade-global-em-virtude-da-guerra-comercial-e-do-brexit-quem-investiu-no-exterior-nao-tem-do-que-reclamar.html

Print Friendly, PDF & Email