Conselheiro da PETROS em conjunto com PF e MPF sanearam BRF. Pedro Parente comandou.

BRF altera governança para fortalecer controles

No dia 27 de abril de 2018, Pedro Parente presidiu sua primeira reunião do conselho de administração da BRF, a gigante das carnes dona das marcas Sadia e Perdigão. Ele havia sido eleito na véspera, numa conturbada assembleia de acionistas, para o posto antes ocupado pelo empresário Abílio Diniz.

Conforme pessoas presentes ao encontro, Parente deixou claro ali que teria duas prioridades em sua gestão: estancar os prejuízos da companhia, que operava no vermelho por causa de erros da gestão anterior, e investigar a fundo as acusações feitas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público contra a empresa.

Cerca de um mês e meio antes, o ex-presidente da BRF, Pedro Faria, havia sido preso no âmbito da Operação Trapaça. Faria permaneceu apenas alguns dias na cadeia, mas as investigações atingiram a empresa em cheio. A Trapaça era um desdobramento da Operação Carne Fraca, deflagrada em março de 2017, que acusava os frigoríficos brasileiros de vender carne estragada e de pagar propina a fiscais do Ministério da Agricultura para encobrir os maus feitos.

As suspeitas de má qualidade provocaram o fechamento de diversos mercados, prejudicando as exportações de carne do país, mas nunca foram comprovadas. Já as acusações de pagamento de propina aos fiscais -uma prática conhecida por quem conhece o setor- prosperariam.

No início de maio de 2018, poucas semanas após Parente assumir a chefia da BRF, a empresa instalou um comitê independente de investigação, que envolvia apenas membros do conselho com a ajuda de oito escritórios de advocacia independentes, como o americano Miller & Chevalier e o brasileiro TozziniFreire Advogados.

Um comitê desse tipo havia sido testado com sucesso na Petrobras, envolvida na Operação Lava Jato, o maior escândalo de corrupção da história do país. Parente comandou a petroleira durante sua "reconstrução" após a crise.

Além dele, o advogado Francisco Petros, que atuou como conselheiro no comitê de auditoria da Petrobras naquela época, passou a exercer função similar na BRF. Petros foi indicado ao cargo pelos fundos de pensão Petros e Previ, maiores acionistas individuais da BRF.

Quatro meses depois, em setembro de 2018, a BRF passou a municiar sob sigilo a Polícia Federal com as informações obtidas em suas investigações internas e a discutir um acordo de leniência -uma espécie de delação premiada das empresas- com o MPF. As negociações ainda estão em curso.

Em outubro de 2018, a PF indiciou Diniz, Faria e outras 41 pessoas investigadas desde a Trapaça. Simultaneamente, a BRF afastou preventivamente os funcionários envolvidos que ainda estavam na empresa – no primeiro sinal público de que agia em conjunto com as autoridades.

A parceria entre BRF, PF e MPF culminou na Operação Romanos, que investiga 60 fiscais agropecuários por receber cerca de R$ 19 milhões em propina. O mercado financeiro aprovou a cooperação da empresa e as autoridades, porque as ações da empresa, que chegaram a cair 1,8% no começo do pregão, fecharam o dia com uma perda mínima, de 0,57%.

Os delegados da PF agradeceram a colaboração "espontânea" de uma empresa -sem citar nominalmente a BRF – e admitiram que a parceria só foi possível graças a uma mudança na gestão administrativa.

Pessoas próximas ao comando da empresa disseram à reportagem que a chegada de Parente não mudou só o conselho mas também pacificou a companhia, que enfrentou por meses luta ferrenha entre dois grupos de acionistas.

De um lado, estavam os fundos de pensão Petros (Petrobras) e Previ (Banco do Brasil). Do outro, Abílio Diniz e o fundo Tarpon. Com apoio da Tarpon, Diniz havia assumido o conselho da BRF em abril de 2013 no lugar de Nildemar Secches, o executivo que liderou o crescimento da Perdigão e a fundiu com a Sadia.

O processo foi turbulento e deixou marcas. Diniz e os sócios da Tarpon criticavam os ex-administradores e prometiam elevar o preço da ação a R$ 100, mas não conseguiram. Acabaram promovendo mudanças que elevaram perigosamente o endividamento da empresa e provocaram prejuízos.

Em meio à crise, veio a Operação Carne Fraca, o que ampliou a insatisfação dos fundos de pensão e dos demais acionistas. Ainda na gestão de Diniz, a empresa até montou um comitê especial de resposta à crise e a fortalecer um comitê interno de auditoria, mas com poucos resultados.

Após a chegada de Parente, foram feitas alterações de governança para robustecer os controles. Do lado da gestão, a empresa também realizou mudanças, mas ainda não recuperou sua rentabilidade, e as ações seguem abaixo do desejado.

cronograma

17/03/2017: Primeira fase da Operação Carne Fraca acusa frigoríficos de subornarem fiscais e questiona a qualidade da carne brasileira. JBS e BRF foram os principais alvos;

Junho de 2017: BRF cria uma comitê de auditoria interno para acompanhar as investigações;

31/08/2017: Com a companhia no vermelho, executivo Pedro Faria avisa que deixará de ser o CEO. Faria havia conquistado o cargo com apoio do fundo Tarpon e do empresário Abilio Diniz;

31/12/2018: Pedro Faria renuncia à presidência executiva da BRF. José Aurélio Drummond, também com aval do grupo de Diniz, assume a função. Os fundos Petros e Previ, principais acionistas da companhia, continuam insatisfeitos;

5/03/2018: Operação Trapaça foca em práticas irregulares da BRF. Pedro Faria é preso e liberado alguns dias depois;

23/04/2018: José Aurélio Drummond deixa a presidência-executiva da BRF;

27/04/2018: Pedro Parente é indicado como presidente do conselho da BRF, no lugar de Abilio Diniz, que perde o assento no conselho;

Maio de 2018: BRF cria um comitê independente de investigação, formado por membros do conselho, com auxílio de escritórios de advocacia contratados;

17/06/2018: Parente assume como CEO da BRF, e acumula cargo de presidente do conselho;

15/10/2018: BRF afasta os funcionários indiciados pela PF por conta das investigações;

29/03/2019: Parente deixa o posto de CEO e permanece apenas como presidente do conselho. O executivo Lourival Nogueira Luz é nomeado CEO;

1/10/2019: Operação Romanos investiga fiscais do Mapa com base nas provas espontaneamente pela BRF. Empresa ainda negocia acordo de leniência.

BRF altera governança para fortalecer controles – Jornal do Comércio

https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/cadernos/empresas_e_negocios/2019/10/706677-brf-altera-governanca-para-fortalecer-controles.html

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