Invepar diz que não está à venda, está comprando

Invepar diz que não está à venda, está comprando | Controlada pela Previ, Petros e Funcef, empresa diz participará dos leilões

Participantes dos fundos de pensão Petros (Petrobras), Previ (Banco do Brasil) e Funcef (Caixa Federal) têm acompanhado com interesse redobrado as notícias sobre a Invepar (Investimentos e Participações em Infraestrutura S/A.), investida por essas três fundações e que controla as operações do aeroporto de Guarulhos (SP) e do Metrô do Rio de Janeiro, além de outras como o VLT carioca.

Além dessas três fundações, cada uma com participação de 25% no capital da empresa, ela também tem a participação do recém chegado Fundo de Investimentos em Participação Yosemite – que entrou na sociedade ao comprar a participação da empreiteira OAS, após os problemas que esta última teve por conta da Lava-Jato.

Endividada e com problemas nas suas duas principais operações, o aeroporto de Guarulhos e o Metrô do Rio de Janeiro, a empresa passou os últimos tempos em busca de compradores. Sem conseguir esse objetivo, a Invepar teria então mudado de estratégia e segundo declarações dadas pelo presidente da Funcef, Renato Villela, à imprensa, ela não só não estaria mais à venda mas, ao contrário, estaria agora na posição compradora. Ele explicou que a companhia poderia participar dos próximos leilões anunciados pelo governo, mas essa intenção dependeria, para ser viabilizada, de obter sucesso em seus esforços de encontrar financiamento para suas dívidas, em especial as de curto prazo. Procurado por Investidor Institucional, nem Villela nem os dirigentes das outras fundações quiseram dar entrevista.

Propostas de compra – Entre os interessados na compra da empresa, dois se destacam. O primeiro é um velho conhecido da Invepar, o fundo soberano Mubadala (Abi Dhabi), credor da maior dívida da empresa, no valor de R$ 1,2 bilhão, em mais uma nova tentativa de obter o controle da holding e de suas 11 subsidiárias espalhadas por cinco estados diferentes (São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais).

O outro pretendente, o fundo brasileiro IG4, embora tenha tido sua suposta oferta de R$ 1,7 bilhão amplamente divulgada “em off” pela mídia, não foi confirmada pelos fundos, negação reforçada por um Comunicado ao Mercado divulgado pela Invepar em 20 de agosto. No passado a empresa, criada em 2000, já esteve também no alvo do fundo canadense Brookfield e da empreiteira CCR.
Insatisfeitos com a proposta do fundo de Abi Dhabi, considerada abaixo do preço de mercado da companhia (valor não revelado), os sócios-controladores anunciaram que o foco agora era buscar saídas para resolver os problemas de caixa. Segundo uma fonte a par das negociações, a saúde do empreendimento é considerada pelos controladores como fundamental, em especial para a segurança dos mais de 350 mil participantes das fundações e suas famílias.

O maior e mais urgente dos problemas da empresa é a dívida de R$ 1,2 bilhão com o Mubadala, a juros IPCA+12% ao ano, agravado por prejuízos acumulados ao longo do tempo e outras questões como renegociações de dívidas, venda de ativos e busca de novas parcerias.

Previ e Funcef já colocaram R$ 680 milhões na holding para pagar parte da dívida com esse fundo, assim como para viabilizar as operações das concessionárias ao longo de dois anos. Esse valor entrou como empréstimo no balanço da empresa, contribuindo para fechar o 1º semestre do ano com uma dívida líquida de R$ 7.995,9 milhões e um prejuízo no valor de R$ 537,8 milhões.

Liquidez – Um primeiro passo importante no rumo do saneamento foi dado no ano passado. O sucesso das negociações com os fundos Farallon (EUA) e Mubadala para rolar a dívida conseguiu amenizar a falta de liquidez no curto prazo e trouxe outros reflexos positivos, como mostra o mais recente relatório de risco elaborado pela S&P, de junho último.

Segundo relatório, a prorrogação para 2021 de dívidas que venciam em dezembro de 2018, evitou a necessidade de antecipação do pagamento da dívida e contribuiu para manter a classificação de rating da agência em CCC+, que corria sério risco de rebaixamento. Para se ter uma ideia, em 2014 a nota da empresa estava em BB, cinco pontos acima da atual.
A prorrogação do vencimento das dívidas para 2021, entretanto, não foi suficiente para evitar o viés negativo apontado pelo relatório:

“Continuamos avaliando a estrutura do capital da empresa como insustentável, uma vez que os dividendos que recebe não são suficientes para honrar o expressivo serviço da dívida”.

Álvaro Landi, analista responsável pelo diagnóstico, destaca que, apesar do acordo ter sido fechado, não se pode desconsiderar a necessidade de um refinanciamento em 2021, quando acaba o prazo da renegociação. “O grupo precisa de resultados positivos em eventos cujo sucesso não depende apenas da empresa, incluindo a redução da dívida com recursos provenientes de injeções de capital ou venda de ativos”.

Caixa – Entre as medidas tomadas ou em estudo pela Invepar para equilibrar o caixa estão, além da renegociação da dívida com o Mubadala, a venda de ativos como a concessão Auto Raposo Tavares. Responsável por um trecho total de 834 quilômetros entre as cidades paulistas de Bauru e Presidente Epitácio, sendo 444 quilômetros no eixo principal e 390 quilômetros de vicinais, o complexo passa por 27 municípios e faz conexão com o Mato Grosso do Sul e o Norte do Paraná. É importante principalmente para o transporte de cargas entre as regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Com a venda da concessão, a empresa espera conseguir pagar total, ou quase totalmente, a dívida com o fundo de Abu Dhabi.

Uma outra concessionária rodoviária também deverá deixar o portfólio do grupo, mas por outras vias. A empresa já anunciou a intenção de devolver a Via 040 para o governo, no recém aprovado processo de relicitação, que aguarda só mais um passo para entrar em vigor: uma resolução das agências reguladoras sobre a indenização a ser paga pelos novos administradores aos atuais concessionários, para compensar investimentos feitos. O decreto da relicitação foi publicado em agosto, regulamentando a Lei 13.448, de 2017.

Endividamento da Invepar
(em R$ milhões)
Perfil 2ºTri/19 2ºTri/18 Variação
Dívida Bruta 9,726.40 9,669.20 0.60%
Curto Prazo 1,599.30 2,666.00 -40.00%
Longo Prazo 8,127.10 7,003.30 16.00%
Disponibilidades 1,730.60 1,490.90 16.10%
Caixa, equival. e aplic.s financ. 703.6 978.8 -28.10%
Aplicações Financeiras 1,026.90 512.1 100.60%
Dívida Líquida 7,995.90 8,178.30 -2.20%
Fonte: RI da Invepar

A Via 040 é responsável pela gestão do trecho de 936,8 quilômetros da BR-040 entre Brasília (DF) e Juiz de Fora (MG). A concessão tem prazo contratual de 30 anos e está no grupo Invepar desde 2014. A principal crítica que a empresa vem recebendo desde que anunciou a intenção de participar da relicitação, é que já arrecadou cerca de R$ 1,3 bilhão em pedágio e não cumpriu compromissos, como a conclusão da duplicação da via.

A concessionária diz que a duplicação não foi concluída porque aguarda os processos de licençamento ambiental. Admite o valor arrecadado mas diz que, no mesmo período, investiu mais de R$ 1,7 bilhão em melhorias do sistema e teve que recorrer a aportes extras dos acionistas no valor de R$ 874 milhões para manter a operação da via. “Como as despesas são maiores que as receitas, há um evidente desequilíbrio econômico-financeiro do contrato”, justifica a Via 040 em nota.

Novas aquisições – Colocar as contas em dia é fundamental para corroborar a intenção manifestada pelos sócios-controladores de fortalecer o consórcio: participar das próximas rodadas de leilões com o objetivo de aumentar e requalificar o seu portfólio de aquisições. Segundo analistas do setor, espera-se que as próximas concessões a vencer apresentem uma geração de caixa mais consolidada, tornando-as ainda mais atraentes.

Para Landi, no entanto, “a posição da empresa hoje ainda não é confiável, não vemos espaço para ela participar dos próximos leilões, ela precisa de liquidez”, diz, reforçando a ideia de que “é melhor vender ativos ou fazer captações para garantir a liquidez”.

Ainda segundo Landi, outro ponto a ser levado em consideração é o ambiente externo, a economia e as perspectivas para os próximos anos, uma vez que as concessões de infraestrutura são longas, numa média de 20 a 30 anos. “Muitas vezes a expectativa quando da compra não se realiza no futuro e isso pode ser um problema”. Uma experiência que a Invepar já conhece com os prejuízos da Via 040.

http://www.investidorinstitucional.com.br/sessoes/mercados/mercado-de-capitais/33660-invepar-diz-que-nao-esta-a-venda-esta-comprando-controlada-pela-previ-petros-e-funcef-empresa-diz-participara-dos-leiloes.html?valor=11

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