Fundos de pensão vão ter de aplicar fora, diz Schroders

Os investimentos no exterior são uma alternativa para os fundos de pensão diversificarem seus portfólios, mas incertezas globais aumentam a cautela das fundações, já reconhecidamente lentas em suas decisões. Apesar de admitir que a apreensão é válida, o diretor de investimentos de ações globais da Schroders, o britânico Gavin Marriott acredita que as fundações logo irão se convencer dos benefícios de ter uma exposição internacional, a despeito da desaceleração econômica no mundo.

Marriott reconhece que há razões genuínas para a cautela das fundações e, em sua visão, as entidades não vão correr para aumentar as alocações no exterior, refletindo o potencial de uma recessão técnica nos Estados Unidos. Mas o processo pode ter início nos próximos seis a nove meses.

"Talvez não seja um momento ótimo para aumentar significativamente a exposição internacional, mas no longo prazo acredito que os fundos de pensão vão aderir [aos investimentos no exterior]", disse o executivo ao Valor. No país, a Schroders tem 20 fundos de pensão entre seus clientes, de diferentes portes. No total, tem R$ 16 bilhões em ativos sob gestão no Brasil.

Para o executivo, trata-se de uma questão de ajustes de estratégia, tendo como base os ciclos do mercado. "Os investidores precisam encontrar o equilíbrio correto [dos investimentos], com uma tendência de aumentar a exposição internacional", afirmou. Ele lembra que o mercado doméstico ainda oferece resultados positivos, mas os prêmios estão mais baixos.

Entre as principais fundações do Brasil, Funcef (Caixa), Petros (Petrobras) e Fundação Real Grandeza (Furnas) informaram publicamente sua intenção de aplicar parte do dinheiro dos participantes no exterior. O processo não costuma ser imediato, já que em alguns casos depende de aprovação das políticas de investimento em diversas instâncias de governança, além da elaboração de critérios de seleção de gestores.

A regulação brasileira determina que os fundos de pensão podem ter até 10% de suas alocações no mercado internacional. O patamar atual é tão baixo que não aparece nos dados estatísticos oficiais do setor, como os da Previc (autarquia que regula os fundos de pensão) ou Abrapp (associação que representa o setor). Um levantamento da consultoria Aditus com clientes que representam R$ 209 bilhões em ativos – cerca de 25% da indústria – mostra que a exposição fora não chega a 1%.

Se no passado os juros domésticos altos não justificavam uma exposição ao exterior, agora o risco de um recessão global e os desdobramentos da guerra comercial entre China e Estados Unidos aparecem como os principais motivos para adiar esse novo passo. "Acreditamos que a economia global está em razoável bom estado. Há desaceleração do crescimento e poderemos ver uma recessão técnica nos Estados Unidos. Mas ela terá duração curta, de dois, três, quatro trimestres. Não há preocupações neste momento sobre uma crise sistêmica sustentada globalmente por uma desaceleração econômica", afirmou Marriott.

A disputa comercial entre China e Estados Unidos também cria incertezas sobre as bolsas. "É por isso que vemos o mercado incrivelmente volátil. Acreditamos que tanto a China quanto os Estados Unidos reconhecem que é do interesse deles chegar a uma resolução e endereçar as questões fundamentais. O que temos visto é que estão tentando forçar o debate e as discussões para uma direção particular", disse.

Globalmente, a gestora administra US$ 565,5 bilhões. Cerca de US$ 30 bilhões correspondem a investimentos em ações. Companhias dos Estados Unidos representam uma parte significativa do portfólio da gestora nos últimos anos, o que na visão do diretor se justifica pelo forte desempenho da economia e do mercado acionário americano nos últimos dez anos.

"A questão é, indo em frente, se isso continua sendo o caso. E os Estados Unidos certamente estão liderando o mundo em termos de desaceleração de resultados corporativos, porque está mais avançado em termos de ciclo econômico. Estamos reciclando alguns dos nossos ativos", afirmou o diretor.

A estratégia da gestora é investir em negócios que considera imunes ao ambiente econômico ou cujo resultado é influenciado por ações da administração, como cortes de custos ou mudanças em estratégias. E embora o ambiente seja incerto, a Schroders vê oportunidades para encontrar boas companhias, caso do segmento de saúde ou serviços de comunicação.

Fundos de pensão vão ter de aplicar fora, diz Schroders | Valor Econômico

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