Aposentadoria e previdência no atual mercado de trabalho

Uma tendência mundial é que as pessoas assumam, cada vez mais, a responsabilidade por decidir o quanto poupar para a aposentadoria, como investir essa poupança e quando parar de trabalhar.

Os esquemas empresariais tradicionais de complementação de renda que envolvem o investimento num fundo de previdência por meio do desconto compulsório mensal de parte do salário até uma idade limite estão se tornando obsoletos. A prática tem mostrado que, a menos que a empresa aceite os riscos de garantir um benefício definido aos trabalhadores no futuro, o arranjo é ineficiente.

Num passado relativamente distante, os fundos de pensão das companhias garantiam a aposentadoria de todos os empregados. O valor dependia dos anos trabalhados e dos salários recebidos ao longo da carreira.

Era um desenho que funcionava bem quando os empregos eram estáveis, os trabalhadores ficavam por muitos anos na empresa e havia poucas mudanças no controle acionário das companhias.

A contrapartida da garantia da aposentadoria era um passivo atuarial para a empresa que precisava ser administrado com cautela. Isso porque não existe correlação perfeita entre o rendimento financeiro do fundo de pensão e as obrigações assumidas com a aposentadoria dos funcionários.

Para evitar o risco atuarial envolvido nessa modalidade, as empresas passaram a adotar um sistema chamado de “contribuição definida”. Significa que o funcionário investe compulsoriamente parte do salário em um fundo de previdência e o valor da aposentadoria será proporcional ao rendimento da aplicação.

O fundo nem precisa ser administrado pela empresa. Pode estar sob a responsabilidade de um banco ou seguradora nas modalidades PGBL ou VBGL.

Esse arranjo tem um problema. Não é fácil convencer um trabalhador a investir parte do seu salário em um investimento que ele não tem controle de como está sendo gerido.

Para exemplificar, o gráfico (acima) compara o rendimento acumulado em 12 meses terminados em julho de 2019 em duas aplicações hipotéticas. Ambas superaram o CDI, o principal indicador do mercado.

A linha azul representa a rentabilidade média de cinco dos maiores fundos de previdência renda fixa oferecidos pelos cinco maiores bancos de varejo do país. A linha amarela é a rentabilidade média de um grupo de seis dos maiores fundos de previdência da categoria multimercado oferecidospor gestores independentes.

No período acumulado de 12 meses, os fundos multimercado dos gestores independentes renderam 2,4 pontos percentuais acima dos fundos de renda fixa. Mas o risco foi maior, conforme ilustra o sobe e desce da linha vermelha.

É difícil convencer um participante de que a aplicação em um dos conjuntos de fundos é melhor do que no outro. Isso depende das escolhas individuais.

Para tentar solucionar esse problema e estimular as adesões aos planos, as empresas acenam com a possibilidade de cobrir os aportes dos funcionários em determinadas proporções. É chamado de “match”, no jargão de mercado.

Por exemplo, a cada R$ 100 de contribuição do funcionário, a empresa pode depositar R$ 50, R$ 100 ou R$ 150 para o plano de previdência. O valor irá depender da relação estabelecida entre depósitos do funcionário e da empresa.

Mas existe um detalhe importante. O valor só fica efetivamente incorporado a conta do empregado depois de alguns anos de contribuição. Caso decida mudar de emprego antes do prazo mínimo, pode perder o benefício.

Isso se chama “vesting” e cria uma complexidade adicional. Potencialmente, pode gerar uma série de favorecimentos e deixar o plano pouco democrático.

Por exemplo, se o funcionário pede demissão para trabalhar para um concorrente é certo que as regras do “vesting” serão cumpridas à risca. Mas se for trabalhar para um cliente, uma política de bom relacionamento comercial pode estimular a direção da empresa a ser um pouco mais flexível.

Por essas razões, a tendência é que as pessoas assumam o controle da maneira como investem seus recursos. E de acordo com um estudo de David Blanchett e Paul Kaplan, analistas da Morningstar, se contarem com a assessoria de um planejador financeiro as decisões financeiras tendem a ser melhores.

Os autores desenvolveram um conceito que chamaram de “gama” para medir o valor da assessoria financeira. E concluíram que além da maior independência, o investimento por conta própria tende a proporcionar ganhos mais consistentes do que a alternativa de delegar a gestão da sua vida financeira para a empresa em que trabalha.

Marcelo d’Agosto é economista especializado em administração de investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

As opiniões contidas neste espaço refletem a visão do analista sobre as companhias, e não a do Valor Econômico. O Valor e o autor não se responsabilizam por prejuízos decorrentes do uso dessas informações (Veja os termos de uso completos em www.valor.com.br/valor-investe/o-consultor-financeiro)

https://mobile.valor.com.br/financas/6382157/aposentadoria-e-previdencia-no-atual-mercado-de-trabalho

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