Petros começa a enxugar carteira de FIPs

A EFPC conclui negociações para a venda de oito FIPs, somando um terço de suas posições

A Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, bateu o martelo na venda de oito Fundos de Investimentos em Participações (FIPs) de seu portfólio, que representam cerca de um terço das posições no segmento. Nem os nomes dos compradores nem os valores da transação foram declinados pela fundação. Segundo o novo diretor de Investimentos da fundação, Alexandre Mathias, a operação ainda está em fase de liquidação mas já pode ser considerada vanguarda, sobretudo por se tratar de uma solução “no atacado”, como define.

“Estamos no fechamento dessa operação e ainda não é possível dar mais detalhes. O setor está curioso para entender os passos que demos e acredito que o processo servirá de base para todas as fundações detentoras de FIPs”, explica Mathias em sua primeira entrevista desde que assumiu o posto na entidade, em abril de 2019, em substituição ao ex-presidente Daniel Lima, que acumulava os dois cargos e deixou a empresa.

Economista de formação, Mathias tem uma longa trajetória no mercado de gestão de recursos, tendo trabalhado por 13 anos na Unibanco Asset Management (UAM) e Itaú e mais sete na Bram, a asset do Bradesco, onde exercia o cargo de superintendente de indexados e asset allocation quando foi convidado para assumir a diretoria de investimentos da Petros. É a primeira vez que trabalha num fundo de pensão.

Segundo ele, a venda dos oito FIPs não deve ser vista como o início de uma política de liquidação das posições da fundação nesse segmento, cuja avaliação no final do ano passado era de cerca de 1,5 bilhão. Além de novas rodadas de vendas de FIPs não estarem no radar da fundação, a médio e longo prazo existe até a possibilidade de novas aquisições. “Em investimento tudo depende da evolução de conjuntura, dos preços e das oportunidades”, diz.

Participações malsucedidas – As negociações para a venda das cotas dos oito fundos – de setores como óleo e gás, e máquinas e equipamentos – foram longas e complexas devido à relevância, ao porte e ao histórico das operações. Além de participações malsucedidas em empresas como Sete Brasil, Gradiente e Eldorado, a fundação também incluiu o fundo Global Equity Properties (FIP GEP), investigado pela força-tarefa da Operação Greenfield.

Segundo Mathias, a fundação pediu recentemente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a abertura de um processo de investigação sobre eventuais irregularidades cometidas por administradores e gestores terceirizados em alguns fundos problemáticos. A fundação suspeita que possam ter ocorrido irregularidades na gestão e administração dos FIPs Enseada e Brasil Petróleo 1.

Apesar disso, alguns gestores observam que há fundos com bons ativos nas carteiras das fundações e a venda de cotas de FIPs, como fez a Petros, poderia ser um caminho a ser seguido por outras fundações. Segundo Mathias, a operação de venda dos FIPs da Petros traz um alento ao mercado secundário de FIPs.

Tendência – Para Ricardo Kanitz, sócio da Spectra Investments, gestora de fundos e carteiras de private equity no Brasil e na América Latina, a venda de cotas de FIPs da carteira da Petros segue uma tendência e o movimento terá impacto positivo sobre a liquidez desses fundos no mercado secundário, trazendo maior conforto para o investidor aplicar nessa classe de ativos. “A Spectra está olhando o mercado secundário de FIPs e tem interesse nele”, diz.

A seu ver, o foco de atenção do investidor não está em setores, mas nas empresas investidas. “Não existe um setor mais atraente que outro, é muito caso a caso”, afirma, observando que a carteira de FIPs dos fundos de pensão no Brasil tem características distintas daquelas dos mercados europeu e americano. “Aqui, a maior parte (do portfólio dos fundos) está investida em infraestrutura e venture capital. Lá fora, o maior interesse é na compra do controle de empresas.”

Renda variável – Além de se desfazer de parte de sua carteira de FIPs, a Petros planeja ampliar sua participação em renda variável, que atualmente está em 17% do portfólio contra 72% da renda fixa. Mas segundo Mathias, novos investimentos no mercado de capital estão condicionados à aprovação da reforma da Previdência. “O Brasil pós reforma da Previdência terá retomada do crescimento, manutenção de juros baixos e, nesse ambiente, será natural aumentarmos a exposição em renda variável doméstica e em investimento no exterior”, diz.

De acordo com o executivo, embora a taxa de juros esteja abaixo da meta atuarial, o ambiente atual tem se mostrado propício para aplicações em títulos longos. Mas no futuro, será desafiador formar um portfólio que garanta remuneração adequada com juros baixos. O cenário exigirá dos gestores capacidade de investir em ativos com mais riscos e maiores retornos, com perspectivas de superar a meta atuarial.

Para isso, o modelo de gestão adotado pela Petros, de núcleos de gestão por segmentos, será fundamental. A nova estrutura de gestão da fundação, iniciada em meados do ano passado, é composta de áreas dedicadas a cada tipo de investimento, como imobiliário, FIPs, investimentos estratégicos, renda variável, fundos multimercados, fundos de crédito, fundos de renda fixa e fundos de fundos.

Essas áreas passam a centralizar a relação com os gestores, selecionando-os, monitorando-os e eliminando possíveis conflitos de interesse. Como se fossem verdadeiras asset managements dentro da fundação.“Essas estruturas, com núcleos de gestão por áreas de investimento, serão fundamentais na busca de performances acima da meta atuarial,” diz Mathias.

Em maio de 2019, foi concluído o primeiro processo interno de seleção de oito fundos multimercados terceirizados, selecionados entre 91 fundos habilitados, cujas diligências externas duraram sete meses. O processo foi conduzido pelo núcleo de Fundo de Fundos. A performance desses fundos será comparada com um multimercado de gestão própria da Petros, montado em junho de 2018, que registrou rentabilidade acumulada de 4,29% de janeiro a maio de 2019. O resultado representa 166% do CDI (+2,59%).

Equacionamento do déficit – O maior desafio da Petros, nas palavras de Mathias, será levar adiante os planos de equacionamento do déficit, que tem mais de 500 ações espalhadas contra cobranças extraordinárias. O plano de benefício definido (PPSP) contabiliza R$ 22,6 bilhões de déficit acumulado nos anos entre 2013 e 2015. Atualizado para o final de 2017, com base na meta atuarial, o déficit do PPSP foi corrigido para R$ 27,7 bilhões.

Segundo a Petros, o equacionamento é fundamental para garantir a continuidade do plano no longo prazo, com o pagamento das aposentadorias, pensões e cumprimento de todos os demais compromissos assumidos com os participantes. Em maio, a 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro restabeleceu a cobrança das contribuições extraordinárias para o plano de equacionamento do déficit de 2015 para os participantes do plano de benefício definido.

Em 2018, os planos Petros do Sistema Petrobras – Repactuados e Não Repactuados, ambos de Benefício Definido (BD), fecharam com déficits acumulados de R$ 5,56 bilhões e R$ 2,83 bilhões, respectivamente. O Plano Petros-2, de Contribuição Variável (CV), o segundo maior da Fundação em patrimônio (R$ 22,1 bilhões) e número de participantes (cerca de 50 mil), registrou rentabilidade de 12,38% e ganho líquido de R$ 2,38 bilhões (superando em 51% o obtido em 2017), fechando o exercício com superávit acumulado de R$ 291 milhões. “Hoje, a administração desse processo de equacionamento do déficit é o maior desafio da empresa. É um desafio importante e estamos muito motivados para conseguir atingir essa meta”, concluiu o diretor. Além desses três planos, a Petros administra outros 34 planos, totalizando 37 planos cujo patrimônio somava R$ 95,5 bilhões em abril de 2019.

Cenário adverso
Para Alexandre Mathias, muito da má performance da carteira de FIPs da fundação está associada ao ciclo econômico vivido pelo País à época da formação dos portfólios, quando a economia brasileira estava em expansão. As sucessivas quedas na atividade econômica, acompanhada por queda nos índices da bolsa de valores, refletiram negativamente nas carteiras de FIPs.

Além disso, na sua opinião, “o atual nível de demanda regulatória praticamente inviabiliza os FIPs”, diz. Ele reconhece que as exigências da legislação refletem os problemas recentes do setor, mas acredita que a médio prazo haverá mudanças na regulamentação a fim de torná-la semelhante às que vigoram nos mercados da Europa e Estados Unidos.

Segundo ele, realizar o acompanhamento de um FIP com o atual nível de detalhes que a legislação impõe tornou-se contraproducente para quem tem um portfólio em torno de R$ 1,3 bilhão, como é o caso da Petros. O custo relativo é alto e, do ponto de vista financeiro faz mais sentido dedicar uma equipe com essa capacidade de análise à renda variável. “A responsabilidade da fundação é ser diligente na contratação do gestor e administrador, focar em assegurar que eles cumpram essa tarefa de acompanhamento e monitoramento. A própria ideia de montar um FIP tem por princípio o fato de que você não quer investir em 50 empresas, quer contratar um gestor para fazer esse investimento”, diz.

https://www.investidorinstitucional.com.br/sessoes/investidores/fundosdepensao/33509-petros-comeca-a-enxugar-carteira-de-fips-a-efpc-conclui-negociacoes-para-a-venda-de-oito-fips-somando-um-terco-de-suas-posicoes.html?valor=0

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