Mudança no pré-sal é polêmica

Embora seja alvo de protestos e críticas, o projeto de lei (4.567/16) que retira a obrigatoriedade da participação da Petrobras na extração do petróleo da camada do pré-sal – área de reservas petrolíferas, encontrada em águas profundas na costa brasileira – vem avançando na Câmara dos Deputados. Na última quinta-feira, o texto que libera a petrolífera nacional de participar com, no mínimo, 30% dos investimentos da exploração dos poços, foi aprovado em votação apertada, tornando mais próxima uma realidade de abertura de mercado para a participação de outras empresas, ou seja, o modelo de concessão.

Contam a favor da proposta, os abalos na imagem institucional e no caixa da Petrobras. A ala a favor defende que, sozinha, a empresa brasileira não consegue sustentar os investimentos. Para a empresa, “a possibilidade de escolher os melhores ativos permitirá que a companhia exerça o direito de ficar com os que forem mais rentáveis e adequados ao seu portfólio”, disse em nota.

O professor na área de Petróleo e Gás da FGV, Alberto Machado Neto, avalia que a lei da partilha – na qual estava determinada a participação mínima de 30% da Petrobras em todos os campos – é equivocada. “Em 10 anos, não tivemos avanços nas vendas de reservas, os leilões ficaram parados e perdemos oportunidades de negócios com o produto mais valorizado. As amarras legais deixaram toda responsabilidade para a Petrobras, prejudicando seu poder de decisão por mero uso político e ideológico, quando, do ponto de vista empresarial, nem sempre seria vantajoso bancar o investimento”, considerou.

O aspecto financeiro é maior impeditivo à manutenção dos investimentos massivos da Petrobras no pré-sal, avalia Machado Neto. “A empresa tem tecnologia para exploração em águas profundas, na qual somos pioneiros. Falta mesmo o dinheiro e, por isso, é importante recorrer a parcerias, nas quais a empresa e o País podem continuar tendo vantagens”, argumentou. Para explorar os Campos de Libra, por exemplo, ela precisaria investir US$ 400 bilhões ao longo de 35 anos do contrato de partilha. “Isso é quatro vezes o valor da dívida da empresa”, completou. Ele defende que a empresa já tem R$ 30 bilhões do pré-sal (dos campos já explorados) em carteira, que poderão continuar sendo extraídos mes­mo no caso de mudança dos modelos de contrato.

Quanto à viabilidade técnica e econômica do pré-sal – que nas projeções iniciais era considerado economicamente viável até um preço mínimo do barril entre US$ 45 a US$ 52 – a Petrobras argumenta que, com o avanço da produtividade nos poços, o custo de extração do pré-sal já é inferior a US$ 8.

A operação já corresponde a 40% da produção de petróleo operada pela empresa no Brasil e alcançou a marca de um milhão de barris/dia, em maio deste ano, “em menos de dez anos após a sua descoberta, o que mostra sua viabilidade e produtividade”, destacou o posicionamento da Petrobras.

Atualmente, a empresa trabalha com uma produção média de 25 mil barris por dia em cada um dos 52 poços produtores. A tendência é que, quanto mais houver investimento, menor se torne custo de exploração, lembrou o professor. Mesmo com o petróleo desvalorizado, o projeto ainda se torna viável, mas serão necessários ajustes. “A indústria petrolífera de modo geral, não apenas no Brasil, se esqueceu da redução de custos, pela valorização do preço do barril. Agora, será preciso readequar os planos a uma nova realidade”, ponderou.

ENTREVISTA – Marcos Aurélio Monteiro (presidente do Sindipetro)

Quais os possíveis impactos que a aprovação da mudança do modelo de exploração do pré-sal podem trazer para o Brasil? O modelo de partilha garantia o conteúdo nacional, os investimentos na educação e saúde, isso tudo vai deixar de existir. Haverá um impacto profundo no parque industrial brasileiro, que passará a utilizar 100% de tecnologia de fora. Será um retrocesso para a economia nacional.

Os trabalhos na cadeia de petróleo e gás podem ser afetados? A geração de empregos, que já está comprometida, será ainda mais. Houve um esvaziamento da categoria em todo o País, em virtude da crise da Petrobras. Desde 2014, com a Operação Lava Jato, dos 43 mil trabalhadores da Refinaria Abreu e Lima, em Suape, sobraram 3,5 mil. Hoje, em Pernambuco, os contratos atuais tiveram queda de 30% do quadro de petroleiros, além de perdas salariais e benefícios. Dizer que as empresas de fora vão investir aqui, gerar empregos aqui, é uma falácia. Existem empresas estrangeiras atuando na exploração da Bacia de Campos e elas trazem seus funcionários. Quem garante o conteúdo nacional por lá é a Petrobras.

E os preços? O custo de exploração do pré-sal está a US$ 8 a US$ 9 o barril. As empresas vão querer elevar isso para US$ 15 a US$ 20, o que, por consequência, elevaria preços de gasolina e diesel, e outros derivados para os consumidores. Além disso, a Petrobras é a única que vai garantir uma maior vida longa aos poços. Muitas empresas que chegam para explorar reduzem de 10 para cinco anos o tempo de exploração de um poço.

Quem defende o projeto de abertura do pré-sal diz que a Petrobras não tem condições de bancar. Vender nosso patrimônio em um momento de crise do setor petrolífero não é inteligente. É como vender um imóvel quando o mercado está sobrecarregado de oferta.

Mas, como a Petrobras poderia arcar com os investimentos se falta dinheiro?
A Petrobras tem condições financeiras de bancar a exploração no modelo de partilha. Isso, inclusive, foi debatido entre a Federação Única dos Petroleiros e a empresa. A empresa não está quebrada. A situação é de fluxo de caixa, porque boa parte dos seus investimentos ainda não trouxeram o retorno esperado. É uma decisão muito precipitada.

http://www.folhape.com.br/economia/2016/7/mudanca-no-pre-sal-e-polemica-0084.html

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