Ivan Monteiro busca equilíbrio entre papel social e econômico da Petrobras

Há pouco mais de um mês no cargo de presidente da Petrobras, Ivan Monteiro, ex-diretor financeiro da estatal, assumiu o comando com a missão de pisar no acelerador e entregar ao mercado, ainda neste ano, os compromissos de venda de ativos e redução de dívidas. Ao mesmo tempo, o executivo tem pela frente um debate caloroso em torno da política de preços dos combustíveis, que após um ano de reajustes diários serviu de pano de fundo para a greve dos caminhoneiros, em maio, e levou à saída o então presidente, Pedro Parente. Monteiro afirma que a empresa reconhece o impacto que tem sobre a sociedade e que está aberta ao debate, mas alerta: a artificialidade dos preços é incompatível com a missão da empresa de desenvolver o pré-sal. "A Petrobras tem um impacto muito grande para a economia como um todo e tem de estar aberta a ouvir a sociedade. Mas não vamos abrir mão de ter uma política comercial realista", disse. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor na sede da empresa.

Valor: Como fica a discussão sobre a política de preços?

Ivan Monteiro: Há que se considerar a influência que temos na sociedade e na vida das pessoas. A greve dos caminhoneiros demonstrou isso. Acreditamos nessa iniciativa da ANP [Agência Nacional de Petróleo de abrir uma tomada pública para debater a periodicidade dos reajustes]. A Petrobras detém uma participação na produção no refino dominante, porém ela compete [com importadores]. Vamos aguardar o resultado e a publicação da resolução para também contribuir com o debate. Desde o início foi dito que não há interferência na política comercial e isso é fundamental, para não retroagirmos.

Valor: Você tende mais a considerar a Petrobras como uma companhia aberta, que não pode ter interferência do controlador, ou como uma estatal que leva em conta o impacto sobre o consumidor?

Monteiro: Não podemos retornar ao que aconteceu no passado, quando se controlou artificialmente o preço. O resultado disso foi um desastre para a Petrobras. A pior coisa que pode acontecer para a companhia, independentemente de ela ser aberta ou fechada, é ser uma empresa que dá prejuízo, quando ela não se mostra viável economicamente. Ao praticar preços artificiais, não necessariamente se gera o benefício que se espera… Sob vários aspectos há um conflito: [a artificialidade] leva a companhia a ter um resultado muito pior, que fará com que seu custo financeiro seja muito maior e que fará com que a rentabilidade seja menor… O desafio da indústria hoje é se tornar competitiva num preço de Brent mais baixo. E tornar-se competitivo é totalmente contrário a se impor uma política de preços artificialmente baixa. Isso vai contra tudo aquilo que queremos fazer, que é desenvolver o pré-sal.

Valor: Mas a política de preços não gerou um conflito na outra ponta, cujo resultado foi a greve de caminhoneiros?

Monteiro: Não acho que o resultado dessa política, em si, gerou a greve dos caminhoneiros. Havia vários outros elementos. Construímos um plano [de negócios] que tem como um dos mais importantes pilares a capacidade que a companhia tem de gerir sua política comercial… Produzimos o óleo, refinamos e vendemos para consumidores. A Petrobras tem de estar atenta ao resultado de sua atividade junto ao público final? Minha resposta é sim. Tem impacto e influência muito grande para a economia como um todo e tem de estar aberta a ouvir a sociedade. Mas não vamos abrir mão de ter uma política comercial realista.

Valor: Sugere um meio-termo?

Monteiro: Preservada essa liberdade de se ter uma política comercial, preservada a saúde financeira da companhia e preservado o fato de que não teremos condições diferentes ou piores do que a concorrência, sim, a Petrobras se insere na discussão liderada pela ANP e apoia.

Valor: A Petrobras pode vir a fazer uma média móvel ou reduzir a periodicidade dos reajustes?

Monteiro: Ainda estamos aguardando o resultado da consulta, mas temos um exemplo que é o caso do GLP. Por iniciativa própria, aplicamos uma metodologia [de reajustes trimestrais, com base numa média móvel de preços no mercado internacional] que suavizou bastante isso [a volatilidade dos preços]. Em 2018, por exemplo, o GLP está caindo 5,4% no acumulado do ano. Esse é um bom mecanismo.

Valor: É um caminho?

Monteiro: Vamos aguardar a discussão [da consulta da ANP].

Valor: Qual foi a contribuição da Petrobras na tomada pública?

Monteiro: No Chile, quando o cobre está com o preço muito alto eles utilizam uma espécie de fundo de estabilização e quando está mais baixa [a cotação] eles utilizam os recursos desse fundo para que a atividade econômica como um todo tenha uma certa estabilidade. Existem outros mecanismos no mundo que tratam disso via tributos, com uma alíquota um pouco mais alta quando os preços estão mais baixos e com uma alíquota mais baixa quando os preços estão mais altos. Isso amortece os efeitos que incomodam, no final, o consumidor. Apoiamos muito esse tipo de mecanismo.

Valor: Em que pé está a negociação do contrato da cessão onerosa?

Monteiro: É uma negociação bastante complexa, um contrato que gera várias interpretações… Tivemos várias reuniões. Apesar de toda a evolução, chegou-se ainda a uma diferença entre a visão do governo e da Petrobras. Essa agenda que está no Congresso [o projeto de lei que autoriza a União a pagar a Petrobras em barris e permite que a empresa venda até 70% de sua participação nas áreas contratadas sob o regime da cessão onerosa] ajuda a facilitar uma negociação final… Já chegamos a um consenso sobre algumas cláusulas, mas sempre ficam aquelas mais importantes para o final. É natural isso. A lei [em tramitação no Senado] vai facilitar muito a redução dessas divergências em busca de um entendimento.

Valor: Há uma data final para se fechar esse acordo?

Monteiro: Não. O ideal é que chegássemos a um entendimento o quanto antes para poder viabilizar esse leilão este ano.

Valor: Você ainda acredita na viabilidade desse leilão este ano?

Monteiro: Não controlamos a agenda do Congresso, mas trabalhamos com esse objetivo.

Poderíamos ficar hoje entre dois anos e meio e três anos sem tomar uma única dívida nova, dada a nossa posição de caixa

Valor: Com o revés recente no STF, que levou à suspensão da venda das refinarias e da TAG, a meta de desalavancagem está mantida?

Monteiro: A meta permanece. Dificuldade aqui [na Petrobras] é parte do nosso dia a dia. Estamos acostumados com isso. Sou sempre otimista, se não eu não teria aceito assumir a diretoria [financeira] da companhia [em 2015] e agora a presidência.

Valor: E para onde caminhará a desalavancagem nos próximos anos?

Monteiro: Num primeiro momento [o objetivo é alcançar a relação dívida líquida/Ebitda] de 2,5 vezes em 2018. [No novo plano de negócios] você vai ver claramente um movimento de se buscar uma outra meta.

Valor: A alta dos preços do barril deixou a situação da empresa mais confortável?

Monteiro: A situação financeira melhorou bastante. Ela ainda preocupa, porque a dívida é muito alta, mas houve uma alteração importante no perfil de vencimento dessa dívida… O que foi feito até agora e vai continuar é [a busca por] uma redução gradativa, mas consistente dessa dívida… E o programa de desinvestimentos é fundamental, porque é ele que dá a dinâmica da redução [da dívida]. Quanto mais sucesso tivermos, mais rápido a dívida cai e melhora o custo financeiro.

Valor: O quanto a situação do perfil de vencimento melhorou?

Monteiro: Poderíamos ficar hoje entre dois anos e meio e três anos sem tomar uma única dívida nova, dada a nossa posição de caixa, fazendo o pagamento de principal e de juros.

Valor: A meta de desinvestimentos de US$ 21 bilhões entre 2017-2018 não ficou comprometida?

Monteiro: Temos um conjunto muito grande de processos sendo tocados ao mesmo tempo. Esse [a venda da TAG, suspensa] era o maior processo sem dúvida, então aumenta o desafio da equipe. Por outro lado o preço do petróleo hoje está bem superior àquele que todos imaginávamos. Isso traz um impacto positivo para outros processos que estamos conduzindo nesse momento. Há também outra discussão sobre qual vai ser nosso posicionamento na negociação que está acontecendo entre a Odebrecht e a LyondellBasel para venda da Braskem, que era um dos ativos que compunha esse valor [da meta de desinvestimentos]. Temos um portfólio bastante superior [a US$ 21 bilhões] para atingir a meta. Tudo isso [a gestão de portfólio] se incorpora à Petrobras de forma definitiva. Gerir portfólio é para o resto da vida.

Valor: O que esperar do novo plano de negócios?

Monteiro: Não vamos mudar dramaticamente, não vamos parar de produzir petróleo. Evidente que você incorporara todo o evento de digitalização, a chegada de novas tecnologias, o impacto que isso vai ter, quando essa demanda [por petróleo] atinge o pico. É sempre uma discussão importante, para que possamos calibrar todos os investimentos.

Valor: E a produção, hoje estagnada, vai subir?

Monteiro: Nós estimamos um aumento da produção dada a entrada dos novos sistemas do pré-sal em 2018 e 2019… Vão entrar agora [este ano] sete sistemas de produção. Provavelmente a Petrobras vai ser uma das poucas companhias no mundo que vai crescer sua produção sem precisar fazer aquisição. Agora, é frustrante que no passado tenha se tomado decisões de investimentos que drenaram recursos, sem retorno, muito pelo contrário, com prejuízo. As refinarias de Pasadena, Okinawa, biocombustíveis, teve a Rnest, o Comperj, o controle artificial de preços… Tudo isso teve uma consequência dramática. [A produção] poderia ser maior se tivéssemos pagando menos juros.

Valor: Podemos esperar um aumento de investimento nos próximos anos?

Monteiro: O investimento depende sempre da qualidade dos projetos. Ninguém se nega e se negará a financiar a Petrobras com retornos corretos se os projetos forem rentáveis. E temos aqui uma carteira de projetos muito bacana, do pré-sal… Acho que os níveis de investimentos que temos hoje, ao redor de US$ 15 bilhões a US$ 16 bilhões por ano, são adequados para a nossa atual situação financeira.

Valor: Das ações oriundas da Lava-Jato, há muita coisa pendente?

Monteiro: O mais importante foi a ‘class action’ [cujo acordo já foi homologado]. Esse era o principal. Existem iniciativas no Brasil. Tem um arbitragem na B3, uma iniciativa que a gente acha meio oportunista na Holanda. Mas a mais importante foi solucionada e a gente ainda discute com o DoJ [Departamento de Justiça] e a SEC nos Estados Unidos.

Valor: E vocês já começaram a receber dinheiro de volta?

Monteiro: Recebemos R$ 1,5 bilhão por força dos acordos feitos [de leniência na Lava-Jato].

Valor: A derrota trabalhista no TST que poderá fazer a empresa desembolsar R$ 17 bilhões colocou os passivos da empresa em destaque. O que já está provisionado?

Monteiro: Tudo o que deve estar provisionado, está provisionado… Chamou muito a nossa atenção no início o tamanho desses passivos. A companhia se pintava para a guerra. Eram questões tributárias de valores muito elevados… [um passivo trabalhista de R$ 17 bilhões] É inimaginável. Isso é muito ruim porque gera insegurança.

Valor: Vocês vão manter a política de pagamento de dividendos trimestral?

Monteiro: Quando você toma a decisão de fazer o adiantamento do juros sobre o capital próprio, você toma a decisão olhando a sua realidade naquele momento, evidentemente com prudência, porque você está projetando o resultado do ano. Vamos continuar a fazer isso, olhando todas as novas variáveis [suspensão de alguns desinvestimentos, derrota no TST, programa de subvenção do diesel]. Se a realidade demonstrar que devemos continuar, vamos continuar. Mas essa avaliação não foi feita ainda. Vai ser feita quando da divulgação do balanço do 2º trimestre.

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