O mistério do plano da Petrobras

A divulgação do plano estratégico da Petrobras, com a dobradinha Michel Temer (MDB) e Pedro Parente em Brasília, tinha tudo para ser o grande acontecimento empresarial de ontem. Mas acabou sendo ofuscada pela notícia de que a americana Boeing e a Embraer estão em tratativas para uma possível combinação de negócios.

Os investidores, aparentemente, gostaram do que viram. As ações da estatal de petróleo tiveram forte alta no pregão de ontem, da ordem de 4% no fechamento, em um movimento que foi acelerado após a notícia sobre a Embraer, que melhorou o humor de todo o mercado.

De um lado, o plano deixa claro como o desinvestimento de pelo menos mais US$ 15 bilhões ou US$ 16 bilhões no ano que vem ajudará a dívida líquida a cair mais US$ 11 bilhões até dezembro de 2018, para US$ 77 bilhões, o que tornará possível (embora por si só não garanta) o cumprimento da meta de diminuir para 2,5 vezes a relação entre o endividamento e o Ebitda nesse prazo. Não garante porque o Ebitda em 12 meses roda hoje na casa de US$ 25 bilhões e teria que subir até lá.

Mas há até uma folga nessa parte do objetivo — de desalavancagem —, dado que a geração de caixa da Petrobras tem superado seus investimentos. E uma redução maior do endividamento poderia vir dessa diferença, portanto.

Mas é exatamente nos investimentos que está o mistério do plano. Ou melhor, na relação deles com o crescimento projetado de produção.

O documento menciona o objetivo de investimento de US$ 74,5 bilhões entre 2018 e 2022. Com dispêndio médio de US$ 14,9 bilhões por ano, a produção saltaria 38% ao fim do período de cinco anos, saindo de 2,1 milhões de barris de óleo diários hoje para 2,9 milhões de barris óleo em dezembro de 2022.

Esse nível de investimento anual, contudo, é similar aos US$ 14,8 bilhões que a Petrobras executou em 12 meses até setembro (distante da meta original de US$ 19 bilhões para este ano) e não muito superior ao valor da depreciação e exaustão contabilizados no mesmo período, de US$ 13,5 bilhões.

É difícil entender como o mesmo ritmo de investimento que tem mantido a produção estável, e próximo à depreciação, fará a produção crescer tanto em cinco anos — ainda mais com a venda de ativos de exploração e produção no radar.

Um possível argumento é o de que há vários projetos antigos em fase de conclusão e os sistemas de produção vão começar a operar ao mesmo tempo.

Tomara. Mas quem acompanha a Petrobras nos últimos dez anos vê uma dificuldade enorme da empresa para fazer a produção decolar.

http://mobile.valor.com.br/valor-investe/casa-das-caldeiras/5236119/o-misterio-do-plano-da-petrobras

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