Eldorado Celulose nasceu sob esquema de corrupção

Fabricante de celulose de eucalipto do grupo JBS, a Eldorado Brasil Celulose ganhou musculatura no início desta década sob o esquema de corrupção revelado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista e viabilizou-se na esteira das relações heterodoxas da controladora J&F com representantes do governo e de fundos de pensão. Em delação premiada, Joesley admitiu que houve propina para facilitar os financiamentos à companhia, pagamento de mesada a um procurador da República para receber informações sigilosas de uma das três operações do Ministério Público Federal (MPF) que a envolveram e intervenção de autoridades em favor de interesses da empresa.

Com investimentos de R$ 6,2 bilhões, a Eldorado deu início à produção na fábrica de Três Lagoas (MS) no fim de 2012. À época, era a maior linha única de celulose do mundo. Hoje, ainda é uma das mais modernas. Um dos atingidos pela delação dos irmãos, o presidente Michel Temer (PMDB), na condição de presidente da República em exercício, acompanhou a pomposa cerimônia de inauguração, em dezembro daquele ano, com direito a apresentação do tenor italiano Andrea Bocelli.

A rapidez com que a JBS viabilizou o investimento bilionário em celulose sempre incomodou suas pares. Agora, a delação premiada do empresário confirmou algumas suspeitas. Segundo Joesley, o financiamento de R$ 2 bilhões feito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção da fábrica da Eldorado rendeu US$ 30 milhões para o caixa de campanha da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a pedido do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

Também houve pagamento ilegal na captação pela Eldorado de R$ 940 milhões, no fim de 2012, em recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), por meio do fundo FI-FGTS. À Procuradoria-Geral da República (PGR), Joesley afirmou que ouviu do doleiro Lúcio Funaro, ligado ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB), que sua empresa não conseguiria financiamento do FI-FGTS se não pagasse propina e que o pedágio equivaleria a algo entre 3% e 3,5% do valor das operações. O esquema envolvendo recursos do fundo deu origem à Operação Sépsis, um desdobramento da Lava-Jato.

Segundo Joesley, o esquema de Funaro e Cunha também recebeu dinheiro pelo empréstimo de R$ 150 milhões da Eldorado junto à Caixa Econômica Federal, em agosto de 2013. Pelo crédito, foram pagos R$ 4,5 milhões. A arrecadação de propinas na Caixa entre 2011 e 2013 é investigada na Operação Cui Bono?, deflagrada em janeiro, em nova fase da Operação Catilinárias (de 2015).

Outro crime relatado pelo empresário atinge mais dois acionistas da Eldorado, os fundos de pensão Petros (de funcionários da Petrobras) e Funcef (da Caixa), cujos investimentos são alvo de investigação do MPF. Em 2009, quando a companhia atual ainda não existia mas o grupo já tinha um negócio de reflorestamento, Joesley conta que chegou a um acordo com Guilherme Lacerda, então presidente da Funcef, e Wagner Pinheiro, da Petros, para ampliar as atividades da empresa chamada Florestal. Desse acerto nasceu o FIP-Florestal, usado como veículo de investimento na Florestal e no qual cada fundo de pensão aportou R$ 275 milhões – a J&F e outro sócio, Mário Celso Lopes, entraram com ações da própria Florestal. Conforme Joesley, pela constituição do FIP, Lacerda e Pinheiro receberam, cada um, 1% do valor da operação. Em nota na sexta-feira, Lacerda negou ter recebido propina.

Nova rodada de pagamentos indevidos ocorreu em 2011, depois da fusão da Florestal com a Eldorado Celulose (ainda pré-operacional e controlada pela J&F). Por essa transação, sustenta Joesley, o ex-presidente da Petros Luis Carlos Afonso levou um apartamento em Nova York avaliado em US$ 1,5 milhão. Carlos Costa, que sucedeu Afonso na fundação, também teria recebido algum pagamento, que o empresário não soube detalhar. Já Carlos Casé, sucessor de Lacerda na Funcef, rejeitou a continuidade do recebimento de propina, de acordo com o empresário.

Essa operação resultou na estrutura societária atual da Eldorado. A J&F detém 63,59% da Eldorado (participação direta), enquanto o FIP Florestal tem 34,45% e o FIP Olímpia, do presidente da companhia, José Carlos Grubisich, 1,96%. No FIP Florestal, Funcef e Petros têm 24,75% cada, e a J&F, o resto.

Outro delator do grupo, o ex-diretor de relações institucionais da J&F Ricardo Saud afirma que Temer, ainda na vice-presidência da República, atuou para facilitar a obtenção de licença para construção do terminal de cargas da Eldorado no Porto de Santos (SP). Segundo Saud, a companhia iniciou em 2015 a reforma do terminal e com apenas um mês de execução, as obras foram embargadas pela Codesp, autarquia que opera o porto paulista. A ajuda foi solicitada a Temer porque, segundo o executivo, era ele quem controlava as nomeações na Codesp. Saud conta que o senador cassado Delcídio do Amaral recebeu um “mensalinho” de R$ 500 mil por dez meses para atender a interesses da Eldorado.

http://mobile.valor.com.br/politica/4975802/eldorado-celulose-nasceu-sob-esquema-de-corrupcao

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