Gavekal diz que Brasil pode ficar “pior, muito pior”

As grandes consultorias internacionais, que ajudam a formar a opinião de investidores, empresários e políticos no mundo todo, começaram a ‘rasgar o verbo’ sobre a crise brasileira.Dilma Rousseff

Uma delas, a Gavekal, publicou ontem um relatório intitulado, “The Land Of Wishful Thinking” (“A terra de torcedores”, numa tradução livre).

O texto começa bem direto: “Quão ruim o Brasil pode ficar? Pior, muito pior.”

O analista Arthur Kroeber, cuja maior especialidade é a China, esteve no Brasil na semana passada e conversou com investidores, gente do governo e acadêmicos. Para Kroeber, a “extraordinária deterioração” do Brasil aconteceu nos últimos seis meses, “e não está nem de longe prestes a terminar.”

Ele nota que o mercado já levou o dólar para R$3 e que a Bovespa já caiu 19% desde seu pico em agosto, mas diz que “correções mais profundas vão acontecer,” em linha com o que discutimos aqui ontem.

Os maiores investidores institucionais brasileiros, que venderam suas posições em Bolsa há meses, estão “perplexos que o capital internacional continue entrando” na Bovespa, escreveu o analista.

“Quando os estrangeiros entenderem o que está acontecendo, tanto as ações e o real vão cair ainda mais.”

O relatório descreve a lambança na Petrobras, mas também aponta os desafios da Vale, cujo principal produto caiu de US$134 por tonelada para cerca de US$60.

“A Vale está mais mal posicionada para enfrentar esta crise do que os seus concorrentes, a BHP Billiton e a Rio Tinto, porque ela é mais concentrada no minério de ferro e fica mais distante da China, o que faz com que seus custos mais altos de transporte aumentem sua desvantagem de preço. O petróleo mais barato vai reduzir os custos de frete e diminuir um pouco a dor. Mas com o preço do minério abaixo de US $ 65, a Vale vai enfrentar uma pressão financeira intensa.”

A Gavekal diz que o efeito combinado destes fatores negativos vai fazer o PIB brasileiro contrair “entre 1% e 2% este ano, com outra queda um pouco menor em 2016.”

“Esta será a primeira vez desde 1929-1930 que a economia brasileira se contrairá por dois anos consecutivos,” prevê a consultoria.

Pelo menos em um trecho do relatório a consultoria vê o copo meio cheio. “É uma pena que haja tão pouco ímpeto em qualquer setor para reverter esta crise — a qual, para sermos justos, será menos danosa que a crise da dívida nos anos 80 e da hiperinflação no início dos anos 90, sem mencionar o quase caos em que se encontram Argentina e a Venezuela.”

Ufa. Agora sim, já me sinto bem melhor.

Por Geraldo Samor

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