A nova era do petróleo começou

O economista americano diz que o mundo com barril a 100 dólares ficou para trás e que apenas as petrolíferas que levarem a sério o desafio da competitividade vão prosperar

 

No começo dos anos 2000, esteve em voga a teoria de que as reservas de combustíveis fósseis se esgotariam num futuro próximo. O economista americano Daniel Yergin era um dos mais enfáticos opositores dessa tese. Segundo ele, a tecnologia levaria o homem a descobrir outras formas de explorar reservas de combustíveis fósseis. Suas previsões se mostraram precisas. Com a exploração das reservas de xisto nos Estados Unidos, a produção mundial disparou no fim de 2014, fazendo o preço do barril de petróleo recuar para menos de 50 dólares. Essa queda acentuada nos preços – que promete ser duradoura – tem impactos econômicos e geopolíticos ainda difíceis de estimar. Novamente, Yergin é um dos mais bem equipados para fazer essa análise. Vice-presidente do conselho de uma das maiores consultorias de energia dos Estados Unidos, depois de desenvolver uma carreira acadêmica na Universidade Harvard, ele é autor de dois livraços sobre a história da exploração do petróleo e a procura por novas fontes de energia: O Petróleo (Paz e Terra), vencedor do Pulitzer em 1992, e A Busca(Intrínseca), recém-lançado no Brasil. “Começou uma nova era do petróleo”, diz Yergin. “Estatais de energia mundo afora, como a Petrobras, terão de levar muito a sério o desafio da competitividade se quiserem prosperar.” Ele falou à reportagem de VEJA no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

 

Numa fórmula simples, por causa da lei da oferta e da demanda. A produção de óleo e gás de xisto nos Estados Unidos cresceu de maneira inaudita. Ninguém contava que subisse tão rápido, nessa escala surpreendente. Em paralelo, há uma queda na demanda, porque as maiores economias do mundo estão em marcha lenta. Em 2014, a Agência Internacional de Energia reduziu as perspectivas para a demanda cinco vezes. Somam-se esses dois fatos e temos a redução drástica no valor do barril de petróleo, que deve perdurar porque não se prevê redução da oferta num futuro próximo. Mas o mais interessante nesse movimento é que a política do petróleo também mudou. Por muitas décadas, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes foram o que chamamos de swing producers, países capazes de definir os níveis de preço do combustível fóssil aumentando ou reduzindo a produção de suas reservas gigantescas. Pois bem, na reunião da Opep do fim do ano passado, os árabes anunciaram que não vão mais desempenhar esse papel e que caberá ao mercado encontrar seu ponto de equilíbrio. Fizeram isso porque, se reduzissem a produção para acompanhar a queda na demanda, criariam uma oportunidade para que países vizinhos como Iraque ou Irã abocanhassem um pedaço do seu mercado. Com toda a turbulência no Oriente Médio, eles parecem ter concluído que a estratégia de mercado livre atendia melhor aos seus interesses do que deixar a porta aberta para que vizinhos hostis pudessem se aproveitar. Em resumo, mudaram os níveis de produção, mudou a geopolítica. Os Estados Unidos, de certa forma, podem desempenhar o papel de “regulador de preços” que antes era dos países do Golfo.

É uma nova era do petróleo.

Se não fosse pelo xisto, quanto o barril poderia custar hoje?

Estima-se que em torno de 150 dólares, em vez dos cerca de 50 hoje vigentes. Teríamos um outro mundo à nossa frente.

O crescimento na produção de xisto nos Estados Unidos é realmente sustentável?

Uma fase importante no desenvolvimento dessa indústria está sendo superada, aquela da regulação. Na maior parte dos estados americanos produtores, a controvérsia amainou. Participei da comissão que o presidente Barack Obama criou para estudar os aspectos ambientais do

gás de xisto, que são os mesmos da extração de óleo de xisto. Há questões ambientais que de fato precisam ser tratadas com todo o rigor. Mas a legislação foi posta de pé, nos planos federal e estadual, e as empresas têm respeitado as normas, porque as multas para irregularidades são altíssimas. A indústria, portanto, está muito mais madura, e só não deve crescer com a mesma velocidade em 2015 porque, como eu disse, os Estados Unidos têm um novo papel na regulação do preço do barril de petróleo e já estão se exercitando nessa área. Em vez de produzirem 1 milhão de barris adicionais por dia, os Estados Unidos vão produzir meio milhão em 2015, pois agora planejam a produção em função dos preços. Mas os investimentos em tecnologia vão continuar. Eles visam a tornar a perfuração uma atividade menos onerosa. Em tempos de petróleo barato, ganhos de competitividade são fundamentais, e os produtores americanos sabem disso.

A morte do rei Abdullah, da Arábia Saudita, em meados de janeiro, pode trazer alguma mudança na política para o petróleo que se desenhou no fim do ano passado?

Não. Trata-se de uma decisão de governo. O sucessor de Abdullah, o rei Salman, já afirmou que manterá as mesmas diretrizes. Ele vinha participando das decisões mais importantes ao longo dos últimos anos. Se outro grande produtor de petróleo decidir reduzir a produção, como a Rússia, pode ser que eles revejam sua política. Mas, por enquanto, ficou instituído que não vão mexer nos níveis de produção.

Outros países com grande produção de petróleo, como Venezuela e Irã, brigaram muito na última reunião da Opep para que a produção caísse e os preços se mantivessem mais altos. A posição da Arábia Saudita prevaleceu. O que aguarda esses países num futuro próximo?

Crise. A Venezuela será o país mais afetado, porque já está falida. Com o petróleo a 100 dólares, ela já passava por grandes dificuldades. Agora, a situação se complicará muitíssimo. A Venezuela não tem acesso ao mercado de capitais, não tem uma indústria diversificada, sofre escassez de muitos produtos básicos. Foi gerida de forma tão ruim que ficou sem saída. Para piorar, o petróleo venezuelano está competindo com o canadense no mercado americano. Como se financiar diante dessa nova realidade? O presidente Nicolás Maduro tem viajado ao redor do mundo para pedir dinheiro. Ele chegou a dizer que “Deus vai prover”. Quando um socialista pede a Deus que o resgate financeiramente, é porque as coisas estão complicadas. O novo cenário também será um grave problema para o Irã, uma vez que Hassan Rohani, o novo presidente, construiu sua plataforma de governo como todos os outros presidentes iranianos, ou seja, sobre uma economia financiada pelo petróleo. Haverá muita pressão sobre ele.

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