Guerra do petróleo já começou e pode mudar geopolítica global

O petróleo é a base da economia. O mundo hoje depende dessa energia, a mais barata e flexível que a humanidade já explorou. É tão importante que se tornou uma base de valor universal como o ouro ou o dólar americano. Não é por nada que a chamamos de “ouro negro”. O problema é que as reservas exploráveis estão mal distribuídas: algumas regiões não tem nenhum, outras estão encharcadas. E que a exploração depende das capacidades tecnológicas e dos preços no mercado internacional.

Se há verdadeiramente uma mercadoria global é o “ouro negro”. Por essas e por outras, cada vez que acontece alguma crise no mercado petrolífero mundial as conseqüências são muito parecidas com uma guerra – e, muitas vezes, acabam em guerra para valer. Pela simples razão que dependendo do preço e das quantidades disponíveis, economias inteiras podem prosperar ou ir à falência.

Hoje não estamos longe de uma crise global do petróleo, com possibilidades de mudanças fundamentais na hierarquia de poder global. A guerra já começou. Nos últimos seis meses, a cotação do bruto perdeu um terço do seu valor. Não é a primeira vez que uma degringolada destas proporções acontece. Mas cada vez, o mundo mudou de cara. Hoje, os ganhadores são os grandes importadores que estão pagando um preço muito mais barato. Os perdedores são os grandes países produtores, com as receitas diminuindo e dificuldades para fechar seus orçamentos. Só que não é simples assim.

A crise atual tem dois motivos: a freada das principais economias do mundo e, portanto, uma queda do consumo de energia, e a volta dos Estados Unidos como principal produtor mundial graças as novas tecnologias de fratura hidráulica para o petróleo e gás de xisto.

Os americanos estão importando muito menos porque estão produzindo em casa com preços baixíssimos e decidiram mandar brasa nas energias renováveis e nas técnicas para economizar energia. O modelo de crescimento chinês bateu no teto e a China também precisa diminuir o consumo de energia para não sufocar numa nuvem negra de poluição. A Europa, outro grande importador, também vai mal, quase parando. Além do mais, está apostando nos renováveis e na diminuição das importações de petróleo. Muitos vendedores, poucos compradores: os preços despencaram.

A notícia é calamitosa para os que vivem do “ouro negro”. A Venezuela, que é totalmente “petro-dependente” e com uma economia destruída por uma década de bolivarianismo, já está à beira da falência definitiva. A economia da Rússia de Vladimir Putin, cujos 80% do orçamento vêm dos hidrocarbonetos e que tem que amargar as sanções ocidentais pela sua agressão contra a Ucrânia, também vai muito mal das pernas, com o valor do rublo despencando. Mas os possíveis grandes perdedores são os países do Golfo árabe-persa que detêm 30% da produção mundial. Apesar de terem constituído polpudos fundos de reserva financeiros, eles não poderão agüentar esse rojão de preços baixos por muito tempo.

Em geral, são os produtores do Golfo, com suas imensas reservas, que controlam os preços no mercado mundial. Se sobem demais, aumentam a produção e a oferta para baixar as cotações. Se caem demais, cortam a produção e a oferta. Só que, desta vez, o perigo vem da explosão da produção nas Américas: o xisto americano, as areias betuminosas do Canadá ou o pré-sal brasileiro. Para não perder sua posição de fiel da balança, a Arábia Saudita e seus aliados decidiram bancar para ver. Isto é: deixar cair os preços para levar a parte menos competitiva da indústria petrolífera das Américas, sobretudo o óleo de xisto americano, os areais canadenses e as futuras explorações do pré-sal brasileiro, à falência – o que reduziria drasticamente a produção nos Estados Unidos e no resto do Hemisfério americano.

Se der certo, o Golfo e os Sauditas voltarão a ser os manda-chuvas incontestes do mercado mundial. Se não, a geopolítica do mundo vai mudar de cara. É guerra de verdade.

Print Friendly